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30 de abr. de 2013

Considerações acerca da desigualdade de gênero

Por:Angelo Cabral.*
*Angelo Cabral é estudante de Geografia da universidade Federal de Pernambuco, e estagiário no Serviço Geológico do Brasil o CPRM.


No que se refere à desigualdade de gênero, temos uma abordagem da Sociologia que abrange aspectos além do senso comum ou dos padrões estabelecidos sobre o assunto. Enquanto o Essencialismo trabalhava a ideia de que as diferenças anatômicas entre os gêneros levariam a um comportamento submisso das meninas e uma postura dominadora entre os meninos, dentro da perspectiva do construtivismo temos uma abordagem mais completa e sensata sobre o assunto. Basicamente o Construtivismo Social defende que a formação das pessoas dentro de sua cultura, ambiente familiar, organização política e padrões estabelecidos desenvolvem importante papel para a definição dos papéis de cada gênero na sociedade. Sendo assim, a submissão da mulher com relação ao homem não é algo recorrente em todos os períodos da humanidade. Dentro da Sociologia, considera-se a desigualdade como algo construído com o passar dos tempos e essa construção data desde 5.000 a.C.

Culturas mais antigas de povos que viviam da Velha Europa, por exemplo, nutriam uma cultura onde a igualdade entre gêneros era mais próxima da neutralidade. Dentro da religião, o Culto à deusas da fertilidade davam um papel mais digno às mulheres dentro de sua organização. Com as constantes guerras que ocorriam entre os povos, aqueles que tinham uma organização hierárquica que cultuavam a força e as guerras, geralmente possuíam uma desigualdade maior entre gêneros dando mais importância ao homem. Esses povos dominavam as culturas mais fracas disseminando seus preceitos tanto políticos como religiosos e com o tempo essa desigualdade entre homens e mulheres foi se espalhando devido a dominações de guerras e imposição de culturas machistas.

Além disso, temos o aspecto econômico dos povos antigos voltados para a agricultura. Na qual, as mulheres acabaram sendo desvalorizadas devido as suas limitações por gravidez, amamentação e cuidado com os filhos, abrindo espaço para os homens que dispunham de maior tempo no campo além da força física exigida nas tarefas agrícolas, o que contribuiu para uma desigualdade mais acentuada.

Temos também o aspecto profissional no qual os homens tinham mais facilidade em aderir à vida política ao tempo em que as mulheres se limitavam à vida doméstica ou setor privado. Com o tempo, essa divisão foi ganhando um aspecto natural para o senso comum estabelecendo um padrão fixo nas sociedades. No decorrer dos anos, a luta das mulheres por uma igualdade ganhou espaço fazendo com que conseguissem o acesso às universidades e atuação profissional em diversas áreas ampliando seu espaço na vida pública.

Com base nesses aspectos históricos, temos uma idéia mais clara da diferença de gêneros atual: A cultura das sociedades ao longo dos séculos estabeleceu, com suas mudanças, papéis restritos (ou preferenciais) aos homens enquanto as mulheres se viam excluídas devido a limitações físicas e o cuidado com os filhos. Importante ressaltar que as limitações físicas acabaram por ter influencia no senso comum, na cultura das pessoas, mas não foram fatores exclusivos causadores das desigualdades como afirmava o Essencialismo. Sendo assim, as conseqüências que existem hoje, foram construídas desde tempos mais antigos da humanidade e deve ser analisada de modo mais profundo e crítico. Hoje essa desigualdade ainda existe, mas com muitas melhorias nesse aspecto devido a lutas e conquistas de movimentos organizados para essa causa. Mesmo assim, as mulheres ainda convivem com problemas (principalmente profissionais) com essa preferência ao gênero masculino que ainda é forte na cultura atual.

Tendo em vista esses argumentos, podemos tratar de questões como a remuneração de trabalho das mulheres que é mais baixa que a dos homens. Acusações de baixa remuneração por discriminação de gênero são constantes na esfera profissional e é um assunto recorrente e principal causa de lutas entre os movimentos feministas, principalmente. Temos ainda a questão doméstica no que diz respeito à divisão das funções que acabam atrapalhando o rendimento feminino no mercado de trabalho. Seja por questão cultural, formação familiar ou qualquer outro motivo, as mulheres têm uma carga doméstica muito grande em comparação com os homens, que dedicam maior parte de seu tempo à carreira profissional. Lidando com essa realidade, as mulheres geralmente tendem a trabalhar em setores informais e/ou com baixa remuneração tendo ainda que lidar com a jornada doméstica, tendo assim, uma jornada dupla de trabalho.


Além da desigualdade no aspecto profissional, as mulheres ainda se vêem vitimas do assédio sexual causado por essa diferença. Seja em casa ou no trabalho, por motivos diferentes em seu contexto, mas iguais em sua essência, constantemente chegam ao nosso conhecimento casos de abusos e estupros contra a mulher em suas áreas de atuação doméstica e profissional. Comumente se interpretam os homens agressores como pessoas com desvios mentais, mas nem sempre isso é verdade. Pesquisas e entrevistas com agressores mostram que muitas vezes, o homem que comete essa transgressão, goza de faculdades mentais sadias e por vezes arquitetam planos e situações para que consiga realizar o estupro ou assédio. A racionalidade utilizada na projeção dos atos violentos exclui a possibilidade de uma doença psicológica, doença essa, que amenizaria o aspecto criminoso dessas atitudes em sua maioria. Sabemos que a formação dessas pessoas desde sua infância, tem grande influencia nesses atos. Geralmente, constata-se que esses homens conviveram com uma família onde o pai era a figura dominante e com temperamento frio e indiferente em relação à sua esposa, ao tempo em que ela sempre apresentava uma posição de inferioridade. Violência doméstica presenciada pelos filhos, abuso sexual durante a infância, são fatores que levam muitas vezes a esse tipo de atitude. O homem sente a necessidade de ser dominador, ter o controle sobre a outra pessoa e, muitas vezes, acaba sendo inclinado a esse tipo de ato por não sentir empatia pelas mulheres por conta de suas revoltas ou traumas internos.

Além do estupro, o assédio sexual dentro do ambiente de trabalho, em sua maioria, gera grandes complicações na convivência e no desempenho profissional das mulheres. Geralmente baseado em relações de poder, chantagens, ameaças, todos esses motivos servem de base para o assédio. Retomamos mais uma vez ao aspecto cultural que leva o homem a se sentir em uma posição dominante com relação à mulher e que usa dessa condição para justificar suas atitudes abusivas. A lei brasileira estabelece como assédio os atos realizados por posições hierárquicas superiores basicamente. Mas é entendido que o assédio pode e ocorre de posições mais baixas aos níveis mais altos dentro de um ambiente de trabalho. A mudança da legislação e das políticas nos ambientes de trabalho que visem dar uma maior atenção e punição a esse tipo de atitude, também é uma das principais causas de lutas dos movimentos femininos em busca de uma igualdade de gênero.

Atualmente temos os movimentos em defesa das mulheres e da igualdade entre os gêneros de forma fortalecida e fruto de uma longa caminhada de militância que vende desde o século XIX. A luta pelo direito à educação, ao emprego e a participação nas eleições foram as causas primordiais dessa luta considerando a organização da sociedade até meados do século XX. A luta das mulheres enfrentou muitas criticas e perseguições ao longo da caminhada. No Brasil enfrentou o período de ditadura, tendo vários membros exilados pelo regime. A luta pelos direitos das mulheres atinge uma escala global, exigências contra o abuso sexual e o controle reprodutivo são outros pontos de foco desse movimento. Temos também o desejo pela democracia política e social abrangendo as desigualdades socioeconômicas, a questão urbana, ambiental, racial/étnica e o trabalho das mulheres tanto doméstico como profissional. Enfim, existe uma ânsia pela melhor atuação da mulher nos diversos segmentos e assuntos tratados na sociedade que ainda alimenta uma capacidade de decisão voltada aos homens.

Temos aí, algumas mudanças que vem ocorrendo com o passar dos anos frutos de uma luta incessante, se comparando com a condição passada das mulheres, as mudanças são extremamente positivas, mas ainda há muito que ser alcançado. Uma organização política forte é crucial para a relevância da mulher nessa empreitada, mostrando a força e a união que comumente é atribuída ao gênero masculino. E essa militância vem conseguindo cada vez mais espaço na sociedade e diminuindo essa discriminação cultural que temos com relação aos gêneros, afinal, se houve uma igualdade de gêneros nos milênios da pré historia, é no mínimo necessário que venha a existir essa igualdade, ainda mais aperfeiçoada, na dita sociedade moderna em que vivemos. 


27 de jul. de 2012

Cambalache

Por:Rodrigo Passos *
*Rodrigo Passos é  formado em Jornalismo e trabalha como repórter no Jornal Folha de Pernambuco.

Para Marshall McLuhan “o homem cria a máquina e a máquina recria o homem”, e é assim que a humanidade caminha a passos largos. A inércia está intrínseca ao medo e, para cada ameaça criada, surge um paliativo inutilmente.
Há alguns anos, em tempos de guerras mundiais, dois ideais se confrontavam, que eu trataria como pseudos caminhos distintos. Desse modo, tínhamos que escolher algum lado, mas não por opção e sim, pela pressão de um botão send de uma bomba atômica. Será que a melhor escolha seria o lado azul da força? Para esta cor, estrelas. Como um céu grandioso, sedutor como uma noite de luar. 
O fato é que o celeste, ainda que se valendo do discurso de mentor da paz - em seu modo destruição - venceu. Hoje, pouco a pouco, como uma tortura nos nossos áureos tempos de ditadura militar, vai nos matando. Se ontem o faziam com frieza, hoje nos vão enchendo de prazer. Nos proporcionam as baforadas de acalanto do nosso cigarro e entopem nossas artérias com seus sanduíches químicos. Tudo isso são monopólios dos camaradas.
A estratégia do novo milênio é a matança parcelada (com direito a juros e correção). Como se os poderosos, no alto dos arranha-céus, rissem nos seus escritórios cheirando a couro de animais em extinção da nossa destruição. Nossa: minha, sua e dele. 
Ao passo que se cria se destrói. O homem cria movido por suas necessidades ou, simplesmente, por mais um prazer, mas nunca sem pensar nas consequências. Isso se torna mais evidente quando sua cria gera lucros. Não se há mais laços estreitos entre os homens como antigamente. Hoje, nós nos tornamos uma estatística. Somos algum ponto no ibope, que eles bestificaram, ou alguém que ainda luta a favor da sua consciência humana. Consciência essa que provavelmente não concorda com a grande obra da humanidade, a sua extinção.
É preciso ter forças, indispensável que a sua luta seja maior do que a realidade de prazeres, criadas por eles mesmos. Do contrário, rezemos, para que na pior das hipóteses, estejamos em alguma cadeira confortável pela galáxia, assistindo em nossas telas LEDs a destruição da terra, ao som de Cambalache, de Carlos Gardel, tomando um pouco de uísque e fumando o ultimo dos nossos cigarros.

26 de abr. de 2012

Itinerário

Por: Lucas Santana*
Fotografias: Raíza Hanna
* Lucas Santana é estudante de Jornalismo e trabalhou como repórter no Jornal Folha de Pernambuco









Confesso que parti para São Paulo cheio de ideias pré-concebidas de como seria a vida, a rotina, os detalhes da cidade. A princípio, havia aquela desconfiança entre o que se ouvia e o que se imaginava, mas com o desembarque no Aeroporto de Guarulhos os mitos (em especial aqueles que tentam denegrir a cidade) foram ruindo.

Atravessando as marginais Pinheiros e Tietê próximo do horário de pico (11:30h), constatei que o trânsito realmente apresenta um alto fluxo de veículos, porém, até para a minha surpresa, a viagem até Congonhas foi tranquila, sem retenção.


Aos poucos, a velha “selva de pedra” carregada de poluição ia se desmistificando. Com um clima agradável (25º), São Paulo foi logo me conquistando. Por um momento sequer deixei de ver árvores pela minha janela e o tempo aberto me indicava que teria um ótimo fim de semana pela frente.

Conhecendo o centro, me apaixonei pela Avenida Paulista com suas largas calçadas ocupadas apenas por bancas de jornal e lixeiros, e para uma avenida de milhões, a limpeza se mostra impecável. As pessoas, a maioria bem vestida, trafegam pelas ruas carregando nos rostos a expressão típica do paulistano, que indica que não existe tempo a perder.

Feito de estações cheias de organização, o metrô é rápido e confortável, e as linhas de acesso permitem você atravessar a metrópole inteira pagando apenas um bilhete. Entre as viagens e as trocas de linhas, enfim percebi o porquê da cidade funcionar tão bem, as pessoas realmente se mostram preocupadas com o bem estar do seu espaço.

Durante a noite, o paulistano se acomoda pelas escadarias dos prédios, se aglomeram para manter o ritmo intenso. O skate parece o melhor meio de transporte entre os sinais vermelhos e as ladeiras sinuosas das avenidas paralelas à Paulista. A moda também se mostra uma preocupação, tatuagens, acessórios, cortes e cores, se misturam formando um conceito bem urbano, bem aconchegante para quem admira esse estilo de vida. O que pinta a cidade e redesenha as nossas ideias são os grafites, espalhados por cada muro, viaduto, cada bloco de pedra.

São Paulo me ganhou em todos os detalhes. Estruturada, dinâmica e global, a cidade superou os meus velhos preconceitos e ideias erradas, e se mostrou um lugar acolhedor, espontâneo e empolgante. Toda pessoa que for mais ligada em arte e cultura deveria conhecer essa verdadeira cidade do mundo.